O Anjo da Guarda

Por José Bernardo

Cheguei em Mangaratiba e vi a barca a menos de 50 metros do cais indo na direção da Ilha. Deu vontade de pular na água e nadar para alcançá-la. Desapontado, olhei em volta para ver se via algum barco que pudesse estar indo para o mesmo destino. Por sorte ou azar, o comandante de uma pequena traineira disse que em uma hora estaria indo para o Saco do Céu. Isso implicaria ter de fazer uma caminhada de quase duas horas até o Abraão, o que seria até agradável.

Duas horas depois, o barqueiro anunciou que iria zarpar. Me acomodei no pequeno espaço do convés e fiz o sinal da cruz. Meu único salva-vidas era a mochila. Num toc, toc, contínuo do motor, Mangaratiba foi ficando para trás e já dava para visualizar a Ilha. Só não gostei nada do que vi. Uma imensa nuvem negra com tons esverdeados, onde a Ilha era um ponto na gigantesca muralha. Fui até a cabina, que só cabia o barqueiro, perguntar a ele o que achava daquilo. Imediatamente ele mandou que eu pegasse a mochila e ficasse ali com ele, pois íamos enfrentar mar revolto. Estranhamente, naquele momento o mar estava sereno e nenhum sinal de vento. Mas não demorou muito e o sol sumiu atrás da nuvem, deixando a tarde com aparência de noite. O vento chegou em rajadas que crispava a água e lançava respingos doloridos. Raios para todos os lados; alguns pareciam subir da Ilha para o céu, até que as ondas começaram a surgir, cada vez mais altas e em intervalos menores. Por vezes a Ilha Grande sumia quando o minúsculo barco se encontrava no fundo das duas paredes de água; a que descêramos e a que iríamos ter que subir. Meu estômago virou um iô-iô até que um incidente me encharcou de adrenalina e eu esqueci o enjôo.

O barco não conseguia mais enfrentar as ondas e por diversas vezes quase ficou de lado correndo o risco de virar. O barqueiro, que não parava de girar o timão para todos os lados, olhou pela janela redonda e constatou que a âncora havia se soltado e que estava no fundo travando o barco. Acabou sobrando para mim, que a muito custo fui rastejando e me agarrando a tudo que podia até alcançar a corda. Logo percebi que não seria fácil, parecia que a âncora estava agarrada de tão pesada. Tinha horas que ela ficava para baixo do barco, quando este descia uma onda, e outras vezes bem à frente numa força contrária. Consegui fazer um laço na corda e enfiei nele o meu braço para eu não ser lançado fora do barco. Ao mesmo tempo fiquei preocupado se o barco virasse e eu ficasse preso a ele. Aos poucos a âncora foi subindo até que consegui içá-la para o convés. Amarrei-a com certo exagero para que não mais se soltasse e voltei para a cabina sob uma torrencial chuva e ondas de dar inveja ao Havaí. Por outro lado, o barco seguia valente subindo e descendo ondas, embora sem rumo certo, pois não se enxergava um palmo à frente e o barco não tinha bússola. Apanhei a minha na mochila e fiquei confuso, em que direção deveríamos nos orientar. Parecia que era noite e só conseguíamos enxergar a silhueta da Ilha quando um raio acendia.

Por fim, depois de duas horas e meia de travessia, com a sensação de ter saído de uma montanha russa infindável, pisei nas areias da praia do Galo no Saco do Céu. A sede era tanta, que bebi da primeira água que encontrei cruzando a trilha. Depois, ela se foi em vomição e assim, fui me reciclando durante a caminhada. A chuva passou e a trilha ficou por algum momento mais visível, mas começou a escurecer cada vez mais e ela voltou a sumir. Até que vi um vulto branco se aproximando à minha frente. Fiquei petrificado por alguns milésimos de segundos até que gritei: ÔÔÔPA!!!. A mancha branca parou e a muito custo pude perceber que se tratava de um cão andarilho. Desses que costumam seguir os trilheiros de praia a praia. Alguns até, são adotados por eles, como quase fizeram meus amigos repórteres do Globo, Alessandro Soler e (Fábio ???...) que foram guiados numa trilha fechada por uma cadela que chorou, ao vê-los embarcar de volta.

Quanto ao meu cão, estalei os dedos e tremi a língua contra o palato produzindo um som universal de chamada de cães e ele se aproximou. Aceitou meu carinho e me sujou mais ainda quando ficou em pé apoiado em mim. Depois de muitos afagos e amizade selada, ele espontaneamente começou a caminhar de volta e eu o segui. Era a única luz que eu enxergava. Várias vezes ele parava me deixando tocá-lo e voltava a me conduzir. Depois da subida, a descida com pontos críticos importantes, como um profundo vale à direita. Mas meu anjo da guarda me conduzia de perto, até que avistei, feito vaga-lumes, as primeiras luzes do Abraão por entre os galhos. Ao chegarmos na ponte do Lazareto, o impasse: o cão parou e não quis mais seguir a estrada. Foi uma despedida que me deixou triste por muitos dias e até hoje penso que vou vê-lo de novo.

O Velório Trilha para Lopes Mendes O Anjo da Guarda
Macaco Bugio A Tempestade O Caso Maia
Estranha no Ninho O Barco do Bicudo O Tesouro

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