A Tempestade
Por José Bernardo
Faltavam duas horas para completar o percurso quando vi começarem a cair milhares de folhas das árvores. Em pouco tempo também os galhos e percebi que uma tempestade ia desabar. Guardei os instrumentos pendurados pelo corpo na mochila e comecei a correr na tentativa de alcançar uma praia próxima. A chuva desceu com potência máxima e em pouco tempo a trilha se transformou numa voçoroca que se desmanchava em vários afluentes me deixando confuso qual seguir. Depois de transpor uma árvore recém caída, cheguei numa praia deserta e me enrolei no plástico que usava para montar o bivaque. A muito custo, troquei as roupas molhadas e continuei ali enrolado no plástico, esperando a chuva passar. A noite chegou e nada do tempo melhorar e eu continuava a segurar as pontas do plástico para me proteger. O dia amanheceu e a chuva parecia ainda mais forte. Na tentativa de melhorar o espaço acabei por me molhar novamente, só me restando seco o saco de dormir que ainda estava enrolado. A noite chegou e a chuva era igual. Feito uma múmia num sarcófago, me fechei no saco de dormir e rezei para Santa Barbara e São Pedro. Não adiantou. Uma onda chegou até onde eu estava e em seguida mais outra, me obrigando a mudar de local. O dia amanheceu novamente e a chuva era constante. Também o frio que comecei a sentir me fez pensar em hipotermia. Meus dedos estavam ficando roxos e eu não parava de tremer. Pela primeira vez pensei que iria morrer. Isso me fez tomar uma decisão e resolvi seguir em frente até chegar numa praia habitada onde eu poderia me safar. Só que no meio do caminho tinha um rio e o meu instinto não me aconselhou a atravessá-lo. Dois dias depois, milagrosamente passei pelo penhasco do Demo e cheguei no Aventureiro mais morto do que vivo. Um banho quente, uma refeição caiçara e uma cama quentinha me ressuscitaram.
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