O Tesouro
Por José Bernardo
Saí do Abraão com a noite, e por conhecer muito bem a trilha, caminhei por duas horas até chegar na casa de um setuagenário amigo caiçara que mora numa praia deserta. O fogão à lenha estava aceso dando para ver sua silhueta magra e alegre preparando algo para o jantar. A visão me deixou eufórico, já que eu imaginava que ele pudesse estar dormindo àquela hora. Me aproximei com a saudação de sempre e a nossa alegria foi mútua. Saquei da mochila um litro de vinho e ficamos a beber e a comer saborosos pedaços de mandioca cozida à luz de lamparinas.
Não demorou muito para começarmos a falar de tesouros escondidos e abandonados pelos piratas ou donos de fazendas que tinham por hábito esconder suas riquezas, ou num desvão da casa, ou sob uma figueira, ou em tocas de difícil acesso. A história daquela noite me fez tomar conhecimento de um tesouro que até hoje se encontra guardado numa dessas tocas, protegido por uma sinistra e feroz serpente, cuja picada, fazia saltar os olhos para fora das órbitas, matando em questão de horas o intruso.
O pai desse meu velho amigo esteve com ele no local onde se diz estar escondido grande quantidade de ouro e pedras preciosas, fruto do escambo entre navegadores e piratas com o dono de uma antiga fazenda na troca por madeira, água e alimentos defumados ou salgados. Antes mesmo de se aproximarem da entrada da caverna, uma pedra atingiu em cheio a testa do pai, deixando-o desmaiado momentaneamente. Depois, veio uma doença que o levou desta vida e nunca mais o lugar foi visitado.
Estendi meu colchonete sob a imensa amendoeira e dormi pensando numa forma de anular o encanto. Como eu tenho pavor de cobras, jamais me atrevi a subir o rio em busca da tal caverna.
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