O Velório

Por José Bernardo

Nas minhas voltas à Ilha, muitas vezes fiquei na casa de um amigo que morava numa aconchegante casa caiçara num cantinho paradisíaco do Saco do Céu. Certa ocasião, ele começou a se sentir mal e acabou internado no Hospital Central da PM. A doença era grave e ele infelizmente veio a falecer. Uma perda lamentável que me deixou profundamente triste. Até hoje tenho saudades.

O corpo saiu do Rio pela manhã em direção a Mangaratiba de onde seguiria numa lancha até a Enseada das Estrelas, e depois até o cemitério no Abraão. Eu e os familiares mais próximos chegamos em Mangaratiba antes do carro da funerária. Uma hora depois, começamos a nos perguntar se já não era hora do corpo ter chegado. Mais uma hora e nada. Ligamos para a funerária e esta também estranhou a demora. Tentamos contato via celular e só dava “fora da área de cobertura”. Por fim, começamos a perguntar aos motoristas de ônibus que chegavam se não tinham visto algum carro carregando um caixão enguiçado pelo caminho. E a resposta era sempre a mesma negativa. Começava a escurecer quando chegou a Kombi e seu motorista apavorado por ter se perdido no caminho. Ao invés dele vir pela Rio-Santos, ele acabou seguindo pela Via Dutra até Barra Mansa e depois descendo a serra da Bocaina até Angra e mais 30 quilômetros até Mangaratiba.

Assim o enterro já não seria mais no mesmo dia e o povo do Saco do Céu, se preparou para uma noite de velório. Em Mangaratiba colocamos o esquife sobre a lancha e sentamos nas laterais sem despregar o olho do que parecíamos enxergar através daquela tampa de madeira. A lua surgiu no horizonte, cheia, tão grande que pensei se tratar de um novo planeta. O mar estava calmo, fresco e o céu límpido, a ponto de a luz da lua não interferir no brilho das estrelas.

Como se sabe, o Saco do Céu não é visível para quem passa ao largo e assim fomos entrando no canal e aos poucos fomos visualizando o cais, que para nossa maior emoção, estava empilhado de pessoas e amigos com velas acesas formando uma imensa procissão. A lancha encostou suavemente e o caixão foi içado. Três pares de mãos o seguraram e fomos atrás passando por entre duas fileiras iluminadas e o povo todo cantando: “Segura na mão de Deus e vai...”. Seguimos até a Igreja de São Cosme e São Damião onde o nosso amigo ficou descansando entre os santos e as fervorosas orações.

A noite passava lenta, a lua era tão brilhante que parecia esquentar e entre inúmeros cafezinhos e saborosas fatias de bolo de fubá, eu ia tomando conhecimento das mais fantásticas histórias de assombração e tesouros enterrados.

Pela manhã, dezenas de barcos saíram em procissão acompanhando o barco maior, até que chegamos no Abraão. No caminho para o campo santo, os turistas paravam em respeito, os que estavam sentados levantavam e quem tinha chapéu, tirava-o em flexão. Derramei minha pá de cal e saí dali me sentindo num outro mundo. Alegre e ao mesmo tempo triste.